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mini-saia

O blog de Mónica Lice.

09
Nov17

A minha trisavó Mariana

Mónica Lice

Nascida no seio de uma família humilde e pobre, Mariana entrou na teia da imigração sem que nada o fizesse prever.

 

Num certo dia, foi ao cais despedir-se da irmã, que partiria num "Vapor", em direção ao Brasil. Ao lá chegar, um homem que a conhecia e que sabia das necessidades da família, perguntou-lhe se ela não queria partir também, em busca de uma vida melhor.

 

Só com a roupa que vestia, sem dinheiro e sem tempo de avisar a família, Mariana entrou no barco. Convém abrir um parêntesis, para dizer que, naquela altura, era normal as pessoas viajarem sem dinheiro - o acordo era que, no primeiro ano, trabalhassem "à conta do barco", o mesmo é dizer, para pagar a viagem. A partir de então, e com a dívida saldada, o dinheiro que recebessem seria deles.

 

Uma vez no Brasil, não faltou trabalho a Mariana. Trabalhava na casa duma família e, depois do trabalho, ia para a janela, ver a confusão da cidade. Foi nessa janela que conheceu o homem com quem havia de casar - um homem rico que, com ela, viu crescer a fortuna, para anos mais tarde, a deixar viúva e sem filhos.

 

Uma vez viúva e com dinheiro, manter-se no Brasil deixou de fazer sentido. Nessa altura, foi cortejada por um homem da sua terra, que tentou, por tudo, casar com ela. Mas Mariana não o amava e optou por regressar à terra, deixando-o.

 

Nos Açores, rica e bem de vida, a viúva Mariana voltou a casar - curiosamente, com o irmão do homem que a amava no Brasil, o seu conterrâneo que, depois da notícia do casamento, mandou dizer nos Açores que "não contassem com ele para mais nada", tal o desgosto amoroso de ver a mulher amada casada com o seu irmão.

 

Casada e feliz, Mariana desejava filhos, mas os filhos não vinham. De acordo com os padrões da época, não ia para nova e, naquela altura, acreditava-se que uma mulher de trinta e tal anos era tudo menos fértil...

 

Numa altura em que os tratamentos de fertilidade eram coisa do futuro, Mariana fez uma promessa ao Sr. Espírito Santo (por quem nós, açorianos, temos uma grande devoção) e pediu para ser mãe. Milagre ou não, os filhos vieram, todos de uma vez, e cinco no total - a ponto de se dizer, com graça, que, a páginas tantas, Mariana fez nova promessa, para não ter mais filhos.

 

Um desses filhos era meu bisavó - um homem sábio, que teve também vários filhos, incluindo o meu avô Humberto, pai do meu pai - o mesmo que me contou esta e tantas outras histórias, com uma memória sagaz, e uma graça ímpar - e que partiu ontem, aos 88 anos de idade.

 

Que a história da trisavó Mariana fique para memória futura, das minhas filhas e de quem há de vir, e seja uma espécie de homenagem à pessoa especial que era o meu avô.

 

 

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